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ARQUEOLOGIA TERRAVISTA

Na sociedade contemporânea, persiste a idéia de que a arqueologia está associada ao estudo de monumentos grandiosos ou de valiosos tesouros enterrados, o que é reforçado por diversas formas de entretenimento, tais como o cinema, jogos eletrônicos, programas de auditório e seriados de tv. Entretanto, o cotidiano da arqueologia está muito distante deste universo maravilhoso.

O papel dos arqueólogos na sociedade atual é revelar informações que, muitas vezes, não são mencionadas na ‘história oficial’, pois a arqueologia trabalha, basicamente, com os vestígios do cotidiano de pessoas comuns, oferecendo a oportunidade de analisar certas relações sociais sob o ponto de vista não apenas daqueles que detêm o poder. Além disso, a arqueologia constitui o único recurso capaz de averiguar sobre a presença de grupos humanos extintos que não dominavam a escrita, tais como os encontrados nas escavações realizadas na TERRAVISTA.

A arqueologia produz o seu conhecimento a partir dos objetos, dentre outros vestígios deixados pelos estabelecimentos humanos, que envolvem também alterações ambientais.

“A cultura material não existe por si. Alguém a produz. E é produzida para algo. Portanto não reflete passivamente a sociedade – ademais, cria a sociedade por meio das ações dos indivíduos” (Ian Hodder).

A arqueologia não ‘coleciona’ objetos, assim como os arqueólogos não são colecionadores ou caçadores de relíquias, pois os objetos isolados não oferecem elementos de análise suficientes para colaborar na compreensão das sociedades que os produziram. Deste modo, quando alguém encontra uma peça que julga bela ou interessante e a retira do seu local de achado, ela está destruindo um determinado contexto de análise.

As pesquisas arqueológicas permitem mapear no tempo e no espaço a presença humana, fazendo uso de diversos recursos tecnológicos para atingir os seus resultados. No Brasil, assim como nos demais países que seguem recomendações estabelecidas internacionalmente, existe um conjunto de leis que assegura a necessidade de estudos arqueológicos anteriores à implantação de empreendimentos, que possam a vir a causar impactos negativos, e irreversíveis, ao patrimônio arqueológico, partindo do pressuposto de que qualquer espaço atualmente ocupado por nossa sociedade pode ter sido habitado por outros grupos humanos no passado.

O complexo TERRAVISTA representa um exemplo da aplicação dos parâmetros de preservação

do patrimônio arqueológico vigentes no país, estabelecidos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN. Por este motivo, uma pesquisa intensiva antecedeu às obras do campo de golfe, áreas residenciais e espaços reservados para os demais empreendimentos. Como resultado, constatou-se uma extensa área arqueológica, que apresenta assentamentos de grupos humanos distintos, associados culturalmente a duas tradições arqueológicas ceramistas: Aratu e Tupiguarani.

O Sul da Bahia e, especialmente, Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália, tem contado com a presença contínua de arqueólogos desde 1996. Apesar disso, a pesquisa arqueológica na TERRAVISTA corresponde à primeira escavação intensiva de um sítio pré-histórico produzida nesta região do Estado.

CERÂMICA TUPIGUARANI

Tupiguarani é uma denominação criada pelos arqueólogos brasileiros que identifica a produção cerâmica associada aos grupos humanos de origem Proto-Tupi ou Proto-Guarani. A palavra Tupi-Guarani refere-se à família lingüística que reúne um conjunto pluriétnico, composto, por exemplo, pelos Tupinambás, Tupiniquins e Guaranis. Os grupos com esta produção cerâmica correspondem àqueles que estabeleceram os primeiros contatos com os europeus, havendo uma vasta literatura sobre seus costumes durante o período de colonização.

Há registros de ocupações Tupiguarani ao longo de toda a costa brasileira, que apresentam uma infinidade de particularidades regionais. Na Bahia, esta cultura material está presente em todas as regiões do Estado.

Na Costa do Descobrimento, foram mapeados inúmeros sítios e ocorrências que indicam uma ocupação intensa entre os séculos XIII e XVI, conforme os resultados de datações até o momento obtidos. Nas imediações do TERRAVISTA, são conhecidos outros sítios Tupiguarani como o Alto do Segredo, Pedro Grande, Alto do Tororão, Japara e Porto Livre.

As aldeias destes grupos possuíam formatos circulares ou ovais, compostas de grandes habitações coletivas com planta retangular, muitas vezes com dezenas de metros de extensão. Sua implantação obedece a uma estratégia visando o aproveitamento de diversas fontes de recursos naturais, havendo ainda a preocupação com a definição de áreas adequadas ao plantio da mandioca, produto que consistia na base da economia de subsistência destes assentamentos.

De um modo geral, a produção cerâmica por grupos pré-históricos está associada ao processo de produção agrícola, referente ao momento em que os homens deixam de depender exclusivamente da caça e da coleta de alimentos, e passam a domesticar as plantas. Com a agricultura, foi possível ao homem habitar locais fixos por longos intervalos de tempo, viabilizando o aprimoramento das técnicas de confecção cerâmica e o surgimento de objetos para atender às diversas necessidades domésticas, tais como armazenar líquidos e preparar alimentos. Além da cerâmica, estes grupos também dominavam a produção de objetos em pedra, utilizados, por exemplo, para raspar, cortar, moer, esmagar, ou ainda, como adornos. Neste último caso, objetos polidos de forma cilíndrica, denominados tembetás, representam adornos labiais típicos deste grupo cultural.

Os objetos cerâmicos Tupiguarani encontrados no sítio TERRAVISTA obedecem à diversidade de formas e decorações características deste universo cerâmico. Os vasilhames abertos retangulares, assim como as bordas reforçadas e pinturas policrômicas – aspectos que podem ser observados nos objetos aqui expostos –, estão entre os principais elementos identificadores desta tradição cultural.

RITUAIS FUNERÁRIOS TUPIGUARANI

No Nordeste do Brasil, são poucos os registros arqueológicos publicados a respeito de sepultamentos em aldeias Tupiguarani. As principais informações ainda estão presentes no registro etnográfico, onde são retratados enterramentos tanto no interior das casas quanto na praça central das aldeias.

No sítio TERRAVISTA, foram encontrados, sob o nível de ocupação, dois conjuntos cerâmicos intencionalmente enterrados. As peças constituem objetos domésticos e, apesar de não terem sido encontrados restos humanos no seu interior – fato comum na região devido às condições desfavoráveis

para a preservação deste tipo de vestígio –, presume-se que elas foram reutilizadas em um ritual funerário. O processo de sepultamento consistia de dois momentos, conforme a descrição presente em relatos etnológicos. Neste caso, o morto era depositado em uma cova comum e, posteriormente, seus ossos eram desenterrados e dispostos em vasilhas semelhantes às dos conjuntos cerâmicos encontrados, sendo novamente enterrados.


CERÂMICA ARATU

Os povos denominados Aratu são conhecidos apenas arqueologicamente, uma vez que não tiveram contato com os europeus que aqui chegaram, no início do século XVI. O termo Aratu foi empregado pela primeira vez como identificador dos vestígios arqueológicos encontrados nas escavações no Centro Industrial de Aratu, região metropolitana de Salvador – Bahia.

Os grupos Aratu estão possivelmente relacionados ao tronco lingüístico Macro-Jê. Há registros desta tradição cultural desde Mato Grosso, passando por Minas Gerais, interior de São Paulo, Goiás, litoral do Espírito Santo, todas as regiões do Estado da Bahia e vários outros Estados do Nordeste.

Na Costa do Descobrimento, são poucos os sítios Aratu bem preservados até agora identificados. De acordo com os resultados de datações até o momento obtidos, os Aratu habitaram esta região entre os séculos X e XIV.

A ocorrência de objetos característicos desta tradição cerâmica é comum na maioria dos sítios históricos estudados, visto que os colonizadores se instalaram nos mesmos locais que, no passado, eram ocupados pelos grupos pré-históricos. Deste modo, em todos os principais núcleos urbanos coloniais já pesquisados, observa-se a sobreposição de vestígios Aratu, Tupiguarani e dos europeus.

No mirante da praça de Trancoso, por exemplo, uma urna funerária encontrada casualmente em 1998, durante uma escavação para o plantio de um coqueiro, foi datada da metade do século XIV. Outra importante ocorrência foi identificada na Cidade Baixa de Santa Cruz Cabrália, durante as obras de saneamento básico, que apresentou a datação mais antiga já anotada até o momento. Também merecem registro duas urnas funerárias escavadas no vale do Rio dos Frades, atualmente expostas no museu da Cidade Alta de Porto Seguro.

Os assentamentos Aratu abrigavam populações densas por longos períodos de tempo, que geram uma camada arqueológica relativamente profunda, apresentando, em geral, formato circular. Os Aratu já cultivavam a mandioca, dentre outros vegetais, como o milho, o feijão e o amendoim.

As formas e o acabamento dos objetos cerâmicos Aratu encontrados no sítio TERRAVISTA correspondem às características gerais encontradas nesta tradição cultural, apresentando vasilhames de formas abertas, sem rebuscamento no tratamento de suas superfícies e bordas, com a aplicação ocasional de grafite. Contudo, na região de Porto Seguro e neste sítio especificamente, é possível observar uma ampla variedade de padrões decorativos, sobretudo nas bordas dos objetos.

Os grupos Aratu também produziam objetos em pedra, utilizados para raspar, cortar e esmagar grãos. Machados polidos para funções diversas, com tamanhos variando de pequenos à grandes e pesados, são comumente encontrados, a exemplo do objeto exposto na vitrine.

RITUAIS FUNERÁRIOS ARATU

A longa duração dos assentamentos Aratu permite a identificação de um grande número de sepultamentos, em sua maioria composta por urnas funerárias cerâmicas com formato piriforme (pêra invertida). O processo de sepultamento envolvia a escavação de uma cova para a urna, dentro da qual o corpo do morto, em posição fletida, era depositado.

Acima da urna, pode ou não haver outro vasilhame cerâmico que a veda, denominado opérculo – objeto que serve de tampa e proteção ao corpo. Algumas urnas se apresentam totalmente lisas, sem decoração, conforme o objeto exposto na vitrine, enquanto outras apresentam decoração ao redor de sua abertura.

No interior das urnas funerárias, é comum serem encontrados objetos que acompanham o morto. Dentre eles, machados polidos, rodelas de fuso ou colares, que possivelmente seriam de uso individual do morto no seu cotidiano, além de vasilhames cerâmicos grafitados.